Entre em Contato

Endereço

Ed. Metropolitan Tower - R. dos Mundurucus, 3100 - Cremação, Belém - PA

Telefone

+55 (91) 4005-6800
Fachada da CASALIV: Helder Coelho aposta em muxarabi, luz e contraste de materiais

Antes de conhecer os ambientes de uma mostra de arquitetura, o visitante já começa a formar uma impressão a partir da entrada. Na CASALIV, a fachada assinada pelo arquiteto Helder Coelho cumpre esse papel ao combinar elementos arquitetônicos tradicionais, iluminação e materiais de diferentes características. A proposta considera tanto a identidade visual do projeto quanto as condições climáticas de Belém, onde a incidência solar, o calor, as chuvas e a umidade influenciam as decisões de arquitetura.

Um dos elementos centrais da composição é o muxarabi, recurso que atravessa séculos e voltou a ganhar espaço em projetos contemporâneos. Sua presença introduz textura e profundidade à fachada, mas também permite discutir uma questão importante da arquitetura atual: como conciliar estética, controle da luz e conforto ambiental.

O que é o muxarabi e por que ele voltou à arquitetura contemporânea

De origem árabe, o muxarabi é um elemento vazado tradicionalmente construído com treliças de madeira. Historicamente utilizado em janelas, sacadas e fachadas, permite a passagem parcial da luz e do ar, ao mesmo tempo que cria uma barreira visual. A trama filtra a visão e a incidência solar, produzindo sombras e padrões que mudam conforme a posição da luz. O recurso também integra a história da arquitetura colonial brasileira, influenciada por tradições construtivas trazidas pelos portugueses.

Sua presença em projetos contemporâneos não representa a criação de uma novidade, mas a releitura de uma solução tradicional. Hoje, o muxarabi aparece em diferentes materiais, formatos e escalas, tanto em fachadas quanto em divisórias e elementos de interiores. O interesse está na possibilidade de combinar permeabilidade visual, controle parcial da luz e identidade estética sem recorrer necessariamente a superfícies inteiramente fechadas.

Em regiões quentes, o elemento também pode contribuir para o conforto ambiental ao reduzir a incidência direta do sol. Dependendo da orientação da fachada, do desenho da trama e dos materiais empregados, pode favorecer o sombreamento e a circulação de ar. O desempenho, porém, depende das características específicas de cada projeto: o muxarabi não substitui, por si só, um estudo de orientação solar, ventilação e proteção contra a chuva.

A luz como parte do projeto

Na fachada da CASALIV, a iluminação foi concebida em conjunto com a arquitetura, e não apenas como um recurso acrescentado depois. Durante o dia, a luz natural atravessa ou incide sobre o muxarabi, criando variações de sombra, textura e profundidade. Conforme a luminosidade muda, a superfície também se transforma visualmente.

À noite, a iluminação artificial assume outra função: destaca elementos da composição e permite perceber a fachada sob uma perspectiva diferente. Essa alternância amplia a experiência visual da entrada e demonstra como a luz pode participar da construção da identidade arquitetônica, em vez de atuar somente para iluminar o acesso.

A relação entre luz e superfícies é especialmente importante em elementos vazados. O desenho da trama interfere na maneira como a claridade é filtrada e como as sombras aparecem nas áreas próximas. O efeito depende da geometria, da orientação e das condições de iluminação, fazendo com que o mesmo elemento possa produzir leituras distintas ao longo do dia.

O contraste entre os materiais

Outro aspecto do projeto é a aproximação entre materiais de aparência mais quente e elementos associados a uma linguagem tecnológica e urbana. A combinação cria diferenças de textura e percepção, evitando que a fachada seja lida como uma superfície uniforme.

Esse contraste também evidencia uma característica recorrente da arquitetura contemporânea: a possibilidade de aproximar referências tradicionais de soluções atuais. O muxarabi, com sua história e seu desenho vazado, pode participar de composições que utilizam iluminação planejada e materiais de linguagem mais tecnológica. O resultado depende da maneira como esses elementos são articulados no conjunto.

Na CASALIV, essa relação integra a identidade visual da entrada e antecipa a diversidade de linguagens presente na mostra. A fachada não precisa reproduzir os ambientes internos para estabelecer uma conexão com eles; sua função é introduzir o visitante a uma experiência que explora diferentes interpretações de materiais, formas e usos do espaço.

Arquitetura em diálogo com o clima de Belém

O clima da capital paraense também está entre os fatores considerados por Helder Coelho. A incidência do sol, o calor, as chuvas e a umidade exigem atenção à escolha dos materiais e às soluções aplicadas nas superfícies externas. Nesse contexto, decisões estéticas e funcionais precisam ser pensadas em conjunto.

O uso de elementos que filtram a luz, por exemplo, pode contribuir para o controle da incidência solar quando dimensionado e posicionado de acordo com as condições do local. Da mesma forma, a especificação dos materiais e os detalhes de instalação são importantes para a durabilidade diante da umidade e da exposição às intempéries. São aspectos que precisam ser avaliados de acordo com as características concretas de cada fachada.