A endometriose afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de ser uma doença frequente, o diagnóstico ainda costuma demorar anos, principalmente porque muitos dos sintomas são confundidos com cólicas menstruais consideradas "normais".
Em entrevista ao Portal LiV, a ginecologista e obstetra, Cinthya Botelho, falou sobre os sinais, diagnóstico e tratamento da patologia. “A endometriose ainda é uma doença de difícil diagnóstico, pois muitos médicos não têm a habilidade nem a expertise de reconhecer os sinais e sintomas. Logo, eles não pensam na doença e não fazem esse diagnóstico”, comentou.

Quando a cólica deixa de ser normal
Caracterizada pelo crescimento do tecido semelhante ao endométrio fora do útero, a endometriose pode atingir ovários, intestino, bexiga e outras regiões da pelve, provocando dores intensas, inflamação e, em alguns casos, dificuldade para engravidar. Embora a cólica menstrual seja comum, alguns sinais merecem atenção, como explica a médica.
“O principal sintoma é a cólica de caráter progressivo. Ou seja, é uma cólica que mensalmente vai ficando pior. Há uma progressão na intensidade da dor ao longo do tempo. A cólica tem uma progressão na intensidade, tanto na intensidade quanto na duração, ou seja, a cada ciclo tornar-se pior, é um sinal de alerta que indica em muito a possibilidade de ser endometriose”, frisa.
Segundo o Ministério da Saúde, a endometriose pode se apresentar de diferentes formas, dependendo da profundidade e da localização das lesões. As manifestações mais comuns são a endometriose superficial, a ovariana, conhecida como endometrioma, e a infiltrativa profunda, que pode atingir estruturas como intestino, bexiga e a região atrás do colo do útero.
Os riscos e a importância do diagnóstico precoce
Identificar a doença nos primeiros sinais pode evitar a progressão das lesões e reduzir o risco de complicações. Dados do Ministério da Saúde mostram que o tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico chega a sete anos.
“O risco de adiar o diagnóstico é que você acaba não iniciando o tratamento e isso faz a doença progredir. Essa progressão vai tornando ainda mais difícil a questão reprodutiva, então sem o tratamento há um maior risco para a infertilidade, pois há a formação de aderência. Portanto não devemos adiar esse diagnóstico e muito menos tardar a iniciar esse tratamento”, explica a Dra. Cinthya.
O diagnóstico é feito a partir da avaliação clínica e pode ser complementado por exames como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética da pelve.
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Vale destacar que a endometriose não significa, obrigatoriamente, infertilidade. As chances de engravidar variam conforme a extensão da doença e cada caso deve ser avaliado individualmente. Quando existe desejo reprodutivo, o planejamento do tratamento leva esse objetivo em consideração.
Tratamento vai além dos medicamentos
Embora não tenha cura definitiva, a endometriose pode ser controlada. As opções incluem terapias hormonais, medicamentos para controle da dor e, em alguns casos, cirurgia por videolaparoscopia. Segundo especialistas, os tratamentos à base de progesterona são considerados a principal estratégia para controlar a progressão da condição.
Além dos medicamentos, mudanças no estilo de vida também podem fazer parte da abordagem terapêutica, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do estresse e acompanhamento multidisciplinar.
É possível controlar a progressão e, em algumas situações, até estabilizar a doença. De acordo com a especialista, a opção “padrão ouro” para o tratamento da endometriose é a progesterona e nela existem várias opções:
- Levonorgestrel - A ginecologista explica que “o produto comercial seria o Mirena”;
- Dienogeste - “É uma apresentação de progesterona via oral”;
- Etonogestrel - “Uma progesterona na apresentação de implantes”.
Não normalize a dor
Conviver durante anos com dores intensas não deve ser considerado normal. Quanto mais cedo for indentificada, maiores são as chances de controlar sua evolução, preservar a qualidade de vida e reduzir impactos sobre a fertilidade.
“Procure um médico especialista que tenha expertise em endometriose. Se o médico não tem a experiência, a habilidade, às vezes pode demorar até para raciocinar que aqueles sintomas são característicos da doença. Então meu aconselhamento é que realmente as mulheres procurem um médico que tenha uma especialidade dentro da ginecologia e que, de preferência, tenha uma visão integrada a respeito desse processo”, orienta a Dra. Cinthya.
