Belém passa a contar com uma nova iniciativa dedicada ao colecionismo de arte. Com 30 membros em sua primeira edição, o Tantas Artes – Clube de Colecionadores nasce com a proposta de aproximar pessoas da produção artística contemporânea, estimular a formação de novos colecionadores e fortalecer o ecossistema das artes visuais no Pará.
Criado por Eduardo Vasconcelos, Vânia Leal e Luiz Cláudio Fernandes, o clube parte de uma compreensão mais ampla do colecionismo: adquirir uma obra é também estabelecer uma relação com um artista, acompanhar uma trajetória e participar da construção de uma memória cultural.
“Um clube de colecionadores de arte desempenha um papel fundamental na aproximação entre artistas, obras e público, contribuindo para a formação de novos colecionadores e para a democratização do acesso à arte contemporânea. Mais do que adquirir obras, participar de um clube significa construir uma relação contínua com a produção artística e acompanhar trajetórias”, explica o administrador, professor e colecionador Eduardo Vasconcelos.
A proposta chega a Belém em um momento de crescente atenção à produção artística amazônica e coloca o colecionador como parte ativa desse movimento. Mais do que formar acervos particulares, o Tantas Artes pretende contribuir para a circulação de obras, o fortalecimento dos artistas e a criação de uma cultura de colecionismo na cidade.
O que é colecionismo de arte?
Segundo Eduardo Vasconcelos, colecionar arte é construir uma relação contínua com obras, artistas e ideias. Uma coleção pode nascer de diferentes motivações — afinidade estética, interesse histórico, pesquisa, vínculo afetivo ou identificação com determinado artista — e se transformar ao longo do tempo em um registro das escolhas e experiências de quem coleciona. "O colecionador não é apenas alguém que compra uma obra. Ele passa a acompanhar exposições, conhecer artistas, pesquisar diferentes linguagens e compreender os contextos em que determinada produção é criada", explica.
Segundo ele, o colecionismo também movimenta o próprio sistema da arte. A aquisição de uma obra contribui para a circulação da produção artística e para a sustentabilidade de artistas, galerias, ateliês e demais agentes do setor. "É justamente essa perspectiva que orienta o Tantas Artes. O projeto foi pensado tanto para quem deseja iniciar uma coleção quanto para quem já coleciona e pretende ampliá-la de maneira consistente. Além da aquisição das obras, o clube promove encontros e experiências de aproximação entre artistas, colecionadores e equipe curatorial", detalha.

Como funciona o Clube de Colecionadores Tantas Artes?
O Tantas Artes tem funcionamento anual e, em sua primeira edição, reúne 30 colecionadores. Ao longo do ciclo, cada participante recebe uma obra de cada um dos seis artistas selecionados para o projeto.
Integram a primeira edição os artistas Emanuel Franco, Nina Matos, Emily Guimarães, Chico Ribeiro, Lise Lobato e Caio Aguiar (Bonikta). Cada artista desenvolveu uma série especialmente para o clube, em uma seleção que reúne diferentes linguagens, gerações e perspectivas sobre a Amazônia contemporânea.
Vânia Leal explica que um dos diferenciais do clube está justamente no caráter exclusivo das obras. “Os trabalhos produzidos para o Tantas Artes não são tiragens: cada obra é única. Os participantes podem escolher entre os trabalhos disponíveis de cada artista no momento da respectiva entrega, e todas as obras são acompanhadas de Certificados de Autenticidade emitidos pela Tantas Artes e assinados pelos artistas”, esclarece.
As entregas acontecem ao longo do ciclo anual, acompanhadas de coquetéis exclusivos para os membros e seus convidados. A primeira entrega acontecerá agora no mês de setembro. A programação também prevê encontros e experiências que aproximam os participantes dos artistas, seus processos criativos e da equipe curatorial.

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Como fazer parte do Clube de Colecionadores?
O investimento para a aquisição das seis obras originais é de 12 parcelas de R$ 500, com possibilidade de pagamento à vista ou mensalmente por transferência bancária, Pix ou cartão de crédito.
Para fazer parte do Clube de Colecionadores Tantas Artes, basta entrar em contato com a organização por meio dos contatos (91) 99999-6794, (91) 98198-3032 ou (91) 99146-1306 e realizar a sua inscrição.
Territórios Invisíveis: a Amazônia como matéria, memória e fabulação
A primeira edição do Tantas Artes tem como eixo curatorial “Territórios Invisíveis: matéria, memória e fabulação na Amazônia”, assinado por Vânia Leal. A proposta parte da ideia de que a paisagem amazônica não é apenas um cenário, mas um território atravessado por histórias, conflitos, memórias, ancestralidades e transformações. A seleção procura apresentar uma Amazônia que ultrapassa o imaginário exclusivamente paisagístico e se manifesta como documento, denúncia, memória e possibilidade de cura.
A diversidade das pesquisas evidencia essa perspectiva:
- A série Pássaros da Ilha, de Emanuel Franco, nasceu de uma experiência vivida durante viagens pelas rodovias paraenses e estabelece uma relação poética entre paisagem, memória espacial e fauna amazônica.
- Nina Matos apresenta a série Realismo Fantástico na Amazônia e articula imaginário amazônico, infância, colonização e apagamento cultural.
- Na produção de Emily Guimarães, a Amazônia é colocada em diálogo com conflitos geopolíticos contemporâneos. A série Cujas raízes se enterram nas veias dos homens relaciona guerra, exploração de recursos naturais e os impactos dessas disputas sobre territórios e ecossistemas.
- Chico Ribeiro parte do bairro do Aurá, em Ananindeua, para investigar território, periferia, memória e pertencimento. Em Ponto Terreno, a própria terra coletada no local torna-se matéria da obra e elemento de memória.
- Já Lise Lobato encontra no barro uma matéria de memória e ancestralidade. Sua produção dialoga com os grafismos marajoaras e com lembranças da infância, transformando a cerâmica em espaço de encontro entre natureza, afeto e território.
- Por fim, Caio Aguiar (Bonikta) combina fotografia, colagem digital e desenho na série Memórias Enkantadas, criando paisagens atravessadas por rios, florestas, encantarias e imaginários amazônicos.
Assim, o clube não apenas disponibiliza obras para aquisição. Ele propõe ao colecionador uma imersão em diferentes formas de pensar a Amazônia e sua produção contemporânea.
Clubes de colecionadores ajudam a formar novos públicos
A criação do Tantas Artes coloca Belém em diálogo com uma tradição já consolidada em outras partes do Brasil. Um dos principais exemplos é o Clube de Colecionadores do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), criado há 40 anos. Segundo o próprio museu, o programa tem entre seus objetivos incentivar o colecionismo, torná-lo mais acessível e fomentar a produção artística nacional, funcionando também como uma porta de entrada para quem deseja iniciar uma coleção.
Em 2026, o programa chega a quatro décadas de existência e já realizou mais de 300 edições, com a participação de mais de 280 artistas, entre artistas individuais, duplas, coletivos e estúdios. A experiência do MAM evidencia como um clube pode desempenhar diferentes funções simultaneamente: formar colecionadores, estimular artistas, criar vínculos entre público e produção contemporânea e ampliar o acesso à arte.
É esse modelo de aproximação que ganha uma leitura própria em Belém. O Tantas Artes nasce voltado especialmente para a produção contemporânea amazônica e para a construção de uma comunidade de colecionadores na capital paraense.
Mercado de arte movimenta bilhões no Brasil
A expansão de iniciativas voltadas ao colecionismo acontece dentro de um mercado internacional de grande dimensão. O Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026, produzido pela economista cultural Clare McAndrew, aponta que o mercado global de arte movimentou aproximadamente US$ 59, 6 bilhões em 2025, um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. O resultado marcou a retomada do crescimento depois de dois anos de retração.
O levantamento também registrou aproximadamente 41, 5 milhões de transações no mercado global em 2025, alta de 2% em relação a 2024.
No Brasil, os indicadores relacionados aos colecionadores também chamam atenção. A pesquisa Art Basel & UBS Survey of Global Collecting 2025, que analisou o comportamento de colecionadores de alto patrimônio em diferentes mercados, apontou que 72% dos brasileiros entrevistados planejavam comprar obras de arte nos 12 meses seguintes, a maior proporção registrada entre os mercados analisados.
O estudo também mostra uma forte disposição para a descoberta: 66% dos colecionadores pesquisados haviam adquirido, em 2025, obras de artistas que eram novos para eles. No Brasil, a relação presencial com o circuito artístico também aparece com força, com feiras, eventos e encontros como importantes espaços de aproximação.
Segundo Eduardo, os números ajudam a dimensionar o cenário em que iniciativas como o Tantas Artes se inserem. “O colecionismo não se restringe às grandes coleções ou às obras de valores milionários. Existe também um movimento de descoberta de artistas, formação de novos públicos e criação de relações mais próximas com a produção contemporânea”, explica.
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