De um lado, o mar e os coqueiros de uma ilha tropical. Do outro, um foguete de dezenas de metros prestes a deixar a Terra. Em Wenchang, na ilha de Hainan, no sul da China, cenas que até pouco tempo estavam restritas a instalações espaciais e transmissões pela televisão começam a fazer parte também dos roteiros de viagem.
O crescimento do turismo espacial na China acompanha a expansão do programa espacial do país e vai muito além de viajar para fora da Terra. Milhares de pessoas já se reúnem em praias para assistir a lançamentos de foguetes, enquanto hotéis, restaurantes, centros de observação e atrações temáticas começam a explorar o interesse crescente pelo espaço.

O fenômeno ganhou projeção internacional neste mês. Em 10 de agosto, milhares de espectadores estavam reunidos na praia de Qishui Bay, em Hainan, para acompanhar o lançamento de um Long March 7A. Pouco depois das 20h, o foguete deixou a base e iluminou o céu. Instantes depois, porém, explodiu durante o voo. O espetáculo luminoso chegou a ser comemorado por parte dos espectadores antes que a falha fosse confirmada.
O episódio não interrompeu as atividades espaciais no local. Seis dias depois, Wenchang voltou a receber um lançamento: um Long March 12 colocou 24 satélites de internet em órbita.
As cenas revelam uma mudança na relação entre a população e o programa espacial chinês. Durante décadas, os lançamentos estiveram associados a bases altamente controladas e instaladas em regiões remotas. Agora, enquanto a China amplia suas ambições no espaço, as decolagens também começam a ocupar o imaginário popular e a movimentar uma nova cadeia de serviços ligada ao turismo.
De base espacial a destino turístico
Wenchang reúne condições pouco comuns entre os centros espaciais chineses. Localizada no nordeste da ilha de Hainan, a cidade abriga o único espaçoporto costeiro de baixa latitude da China. Isso permite que visitantes acompanhem foguetes deixando a Terra tendo como cenário o oceano, praias e coqueiros.
Boa parte das áreas utilizadas pelo público para observar as decolagens tem acesso gratuito. A combinação entre localização, paisagem e atividade espacial ajuda a explicar por que os lançamentos começaram a se transformar em eventos turísticos.

A cidade também abriga o primeiro centro de lançamentos espaciais comerciais da China, que entrou em operação em novembro de 2024. A expansão dessa infraestrutura tende a aumentar a frequência das missões e, consequentemente, criar mais oportunidades para quem viaja à região interessado em assistir às decolagens.
Ao redor dessa movimentação, começa a surgir uma economia própria. Pousadas, hotéis, restaurantes e cafés recebem visitantes interessados nos lançamentos, enquanto plataformas e centros de observação transformam a decolagem em uma experiência planejada de viagem. Há espaços que combinam a observação dos foguetes com atividades educativas, vídeos, palestras e produtos relacionados ao setor aeroespacial.
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A própria imprensa estatal chinesa já utiliza a expressão “aerospace-themed tourism”, ou turismo de temática aeroespacial, para definir o fenômeno.
E o interesse ultrapassou as fronteiras do país. Turistas da Rússia, França, Malásia e outros países já viajaram a Hainan especificamente para acompanhar lançamentos. Uma operadora relatou às autoridades locais que havia levado grupos russos à ilha pela quarta vez devido à procura crescente pela experiência.
A frequência das missões é fundamental para consolidar esse mercado: quanto mais foguetes são lançados, maior a possibilidade de vender hospedagem, alimentação, transporte e outras experiências relacionadas ao evento.
Turismo espacial vai além de assistir aos foguetes
Por enquanto, grande parte desse mercado acontece com os pés no chão. Mas empresas chinesas já trabalham em uma etapa bem mais ambiciosa: colocar os próprios turistas dentro de veículos espaciais.

A startup chinesa Deep Blue Aerospace anunciou planos de iniciar voos turísticos suborbitais em 2027. Os bilhetes foram anunciados por 1,5 milhão de yuans, aproximadamente US$ 210 mil na cotação divulgada na época. Os dois primeiros lugares colocados à venda, em 2024, foram comprados durante uma transmissão ao vivo em uma plataforma chinesa de comércio eletrônico.
A experiência prevista é diferente de uma viagem orbital. O veículo deverá alcançar entre 100 e 150 quilômetros de altitude e depois retornar à Terra. A previsão divulgada pela empresa é de aproximadamente 12 minutos de viagem, incluindo pelo menos cinco minutos de sensação de ausência de peso.
Da Terra à Lua
A China realizou seu primeiro voo espacial tripulado em 2003, sua primeira caminhada espacial em 2008 e concluiu a estação espacial Tiangong em 2022. Também se tornou o primeiro país a pousar uma missão no lado oculto da Lua e, posteriormente, trouxe para a Terra amostras coletadas naquela região lunar.
Agora, um dos principais objetivos é realizar um pouso tripulado na Lua antes de 2030. A China também desenvolve planos de longo prazo relacionados à exploração de Marte.
A expansão acontece em meio à disputa tecnológica e estratégica com os Estados Unidos e ao crescimento de empresas privadas dentro do setor espacial chinês. Ao mesmo tempo, quanto mais frequentes e visíveis se tornam essas missões, mais o espaço passa a fazer parte do cotidiano e do imaginário da população.
